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28.9.26

Como utilizar o Cubo de Atividades Montessori em uma sessão neuropsicopedagógica

 


O Cubo de Atividades Montessori pode ser utilizado como um recurso lúdico em sessões neuropsicopedagógicas para estimular habilidades relacionadas à atenção, à coordenação motora fina, à percepção visual, ao raciocínio lógico e à resolução de problemas.

Mas existe uma diferença importante entre simplesmente oferecer o brinquedo à criança e utilizá-lo com uma intencionalidade neuropsicopedagógica.

Durante a sessão, o objetivo não é apenas fazer com que a criança complete as atividades do cubo, mas observar como ela explora o material, compreende as propostas, organiza suas ações, lida com desafios e responde às intervenções.

A seguir, apresento uma proposta prática de utilização desse recurso no consultório, com objetivos, etapas, exemplos de atividades e formas de registro.

1. Quais habilidades podemos trabalhar?

As possibilidades dependem das atividades presentes no cubo. Alguns modelos possuem engrenagens, labirintos de contas, encaixes, fechaduras, formas geométricas e outros desafios.



Essas habilidades não são avaliadas de maneira isolada apenas pela conclusão de uma atividade. É necessário observar o comportamento da criança em diferentes situações e relacioná-lo à sua história de desenvolvimento e às demais informações da avaliação.


Como organizar uma sessão de 50 minutos?

A proposta abaixo pode ser adaptada à idade, ao perfil de desenvolvimento, aos objetivos de intervenção e às características do paciente.




Atividade 1 — Caminho das contas

Atenção e coordenação motora

Objetivo: observar o controle dos movimentos, a atenção visual e a capacidade de acompanhar um percurso.

Como aplicar:

  1. Peça à criança que movimente uma conta pelo percurso.

  2. Solicite que acompanhe o caminho até o final.

  3. Se for adequado, proponha que siga uma sequência de cores ou um percurso específico.

Observe: precisão dos movimentos, controle da velocidade, acompanhamento visual, distrações e necessidade de ajuda.

Pergunta mediadora: “Como você pode levar essa conta até o outro lado?”



Atividade 2 — Encontre o encaixe

Percepção visual e raciocínio lógico

Objetivo: explorar a discriminação de formas, a correspondência e a resolução de problemas.

Como aplicar:

  1. Apresente as peças disponíveis.

  2. Peça à criança que identifique onde cada peça pode ser encaixada.

  3. Se necessário, comece com duas opções e aumente gradualmente a quantidade.

Observe: reconhecimento de formas, tentativa e erro, rotação das peças, compreensão da proposta e estratégias de resolução.

Pergunta mediadora: “O que você percebe de diferente entre essas duas formas?”


Atividade 3 — Descobrindo as engrenagens

Planejamento e causa e efeito

Objetivo: estimular a experimentação, a percepção das relações entre movimentos e o planejamento de ações.

Como aplicar:

  1. Convide a criança a movimentar uma engrenagem.

  2. Pergunte o que acontece com as outras peças.

  3. Proponha que descubra como produzir determinado movimento.

Observe: exploração espontânea, antecipação de resultados, compreensão das relações entre as peças e flexibilidade para tentar novas estratégias.

Pergunta mediadora: “O que você acha que vai acontecer se girarmos esta peça?”


Atividade 4 — O desafio das travas

Sequenciamento e resolução de problemas

Objetivo: observar como a criança organiza movimentos e resolve desafios que envolvem mecanismos simples.

Como aplicar:

  1. Apresente uma trava ou um mecanismo adequado à idade.

  2. Peça que a criança descubra como abri-lo.

  3. Se houver mais de um mecanismo, proponha uma sequência de exploração.

Observe: compreensão do funcionamento, coordenação motora, planejamento, persistência e reação diante de dificuldades.

Pergunta mediadora: “O que precisamos fazer primeiro para conseguir abrir?”


Atividade 5 — Desafio da sequência

Memória de trabalho e atenção

Objetivo: explorar a capacidade de acompanhar e executar instruções em sequência.

Como aplicar:

  1. Escolha elementos do cubo que permitam executar ações simples.

  2. Dê uma instrução com duas etapas, como: “Gire a engrenagem e depois movimente a conta”.

  3. Se a criança conseguir realizar a proposta com facilidade, experimente três etapas, respeitando suas possibilidades.

Observe: compreensão verbal, manutenção da instrução, organização das ações e necessidade de repetição.

Pergunta mediadora: “Qual era a primeira coisa que você precisava fazer?”

4. Como graduar a dificuldade das atividades?

Uma estratégia útil é começar com uma tarefa acessível e aumentar a complexidade conforme a resposta da criança.

A progressão não deve ser baseada apenas na idade. O mais importante é considerar o desempenho observado, a compreensão da tarefa, o nível de ajuda necessário e o conforto da criança.

5. Como registrar as observações durante a sessão?

O registro é essencial para que o cubo não seja utilizado apenas como entretenimento, mas como um recurso integrado ao planejamento da intervenção.

Você pode utilizar uma ficha simples como esta:

FICHA DE OBSERVAÇÃO NEUROPSICOPEDAGÓGICA


7. Como integrar o cubo ao plano de intervenção?

O cubo pode ser incluído no planejamento quando existe uma habilidade-alvo definida e uma justificativa para a escolha do recurso.

Exemplo de planejamento:

Plano de intervenção — exemplo

Atividade: encaixe de formas geométricas

Objetivo geral: favorecer experiências de percepção visual, organização de ações e resolução de problemas.

Objetivos específicos:

  • Identificar correspondências entre formas e espaços.

  • Experimentar diferentes estratégias de encaixe.

  • Ampliar gradualmente a autonomia na realização da tarefa.

Recurso: cubo de atividades com encaixes geométricos.

Estratégia: apresentar inicialmente duas peças, observar a resposta e aumentar gradualmente as opções, conforme o desempenho.

Critério de acompanhamento: registrar o tipo de ajuda necessária, as estratégias utilizadas e a capacidade de realizar a atividade em diferentes tentativas.

Continuidade: comparar as observações ao longo das sessões e avaliar se a habilidade aparece também em outras situações, como jogos de encaixe, organização de materiais e atividades gráficas.

8. O cubo de atividades substitui uma avaliação neuropsicopedagógica?

Não. O cubo é um recurso lúdico que pode contribuir para a observação e a intervenção, mas não é um instrumento diagnóstico padronizado.

Ele não permite, isoladamente, diagnosticar TDAH, TEA, transtornos de aprendizagem ou alterações específicas das funções cognitivas.

A avaliação neuropsicopedagógica exige uma investigação mais ampla, considerando história de desenvolvimento, contexto familiar e escolar, habilidades acadêmicas, observações clínicas e instrumentos adequados à finalidade da avaliação.

O cubo pode fazer parte desse processo como um recurso complementar, desde que sua utilização esteja alinhada aos objetivos profissionais e aos limites da atuação.

Conclusão: o valor está na intencionalidade

O Cubo de Atividades Montessori pode transformar uma brincadeira em uma oportunidade de exploração, observação e aprendizagem.

Na sessão neuropsicopedagógica, o diferencial não está apenas no brinquedo escolhido, mas na forma como o profissional organiza a proposta, observa as respostas da criança, adapta os desafios e utiliza as informações para orientar o acompanhamento.

Cada criança aprende de uma maneira. Nosso papel é compreender suas estratégias, reconhecer suas necessidades e criar oportunidades para que ela desenvolva suas potencialidades.



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