31 outubro 2017

# Arte # Formação do professor

A HISTÓRIA DA TECNOLOGIA NA ARTE


Fonte:https://pixabay.com/pt/galeria-arte-artista-arte-abstrata-2931925/

A HISTÓRIA DA TECNOLOGIA NA ARTE


O conceito de tecnologia é intrigante, alguns autores utilizam desta palavra como algo novo dando a entender que essa ideia surgiu a partir de uma grande revolução e que a sociedade pós–tecnologia irá viver uma era fictícia onde máquinas e seres humanos disputam espaços. Essa é, certamente, uma visão ínfima diante do real conceito de tecnologia pelo qual acreditamos, pois compreendemos que o seu significado vai além desta primeira explanação.
Para explicar melhor essa visão temos que considerar o conceito de tecnologia e as relações dos seres humanos para com elas em sua trajetória histórica.
O homem, em seu percurso histórico, demonstrou ser ativo em relação ao meio em que vive.
Ao contrário de outras espécies, modificou e criou formas de interagir o tempo todo com o ambiente em que vive.
Foley (2003) retrata que os humanos precisam sentir-se seguros e confortáveis, por isso constroem ferramentas que assegurem esses benefícios. Relata também que essa característica nos diferenciou de outras espécies, pois nossos ancestrais precisaram desenvolver habilidades de construção e uso de ferramentas próprias ― as tecnologias.
Pensamos então que tecnologia nada mais é do que um(...) conjunto de conhecimentos e princípios científicos que se aplicam ao planejamento, à construção e um determinado tipo de atividade.(KENSKI, 2008, p. 18)
No campo das atividades artísticas, as técnicas de acordo com Santaella (2003) se definem como um saber fazer, referindo-se as habilidades, a uma bateria de procedimentos que se criam, se aprendem e se desenvolvem de acordo com as inovações tecnológicas que vão aparecendo.
Para compreender melhor essa dinâmica vamos nos aportar há alguns momentos históricos que achamos fundamentais na relação entre tecnologia e arte.
Comecemos pelo Renascimento até o século XIX, fundamentados por Santella (2003), notamos que todas as produções artísticas, neste período, eram feitas artesanalmente. O indivíduo dependia de habilidades manuais para desenhar, plasmar os recursos como pincéis, tintas e outros recursos manuseáveis do visível e do imaginário visual em forma bi ou tridimensional.
No século XVIII, com Revolução Industrial, acontece uma grande revolução tecnológica, a invenção da máquina a vapor causando desenvolvimento acelerado da civilização urbana. Nas Artes Visuais, surgiu a máquina fotográfica, criação atribuída ao francês Joseph Nicéphore Niépce, em 1826, e com ela a produção de imagens mexeu com os ânimos de muitos artistas, alguns pintores que se sujeitavam a trabalhar em estúdios como retratistas de famílias resolveram experimentar novas formas e lugares, dando espaço e liberdade para a criação.
Segundo Bueno (2008), os pintores mais ousados resolveram sair de seus ateliês de espaço organizado e iluminação planejada para captar luz solar como os fotógrafos faziam.

Além de provocar essas mudanças, a máquina fotográfica instaurou o fim à exclusividade do artesanato nas artes visuais, pois de acordo com Santaella (2008) é neste instante que nasce a arte tecnológica.

Enquanto a técnica é um saber fazer, cuja natureza intelectual se caracteriza por habilidades que são introjetadas por um indivíduo, a tecnologia inclui a técnica, mas avança além dela. Há tecnologia onde quer que um dispositivo, aparelho ou máquina for capaz de encarnar, fora do corpo humano, um saber técnico, um conhecimento científico acerca de habilidades técnicas específicas.(SANTAELLA, 2008, p. 153).

A arte tecnológica está atrelada ao fato do artista fazer uso de dispositivos, máquinas, conhecimentos científicos para materializar uma obra e por isso os impactos sociais e culturais advindos após o uso da fotografia no campo das artes visuais foram imensos.
Santanella (2008) expõe que alguns artistas ofuscados pelas possibilidades de atuação desta nova forma de expressão, abandonaram seus cavaletes e o sonho da natureza em estado puro para colher flagrantes de rua e da vida mundana.
Mesmo com toda esta repercussão a fotografia não era considerada arte, muito por sua captura da realidade se dar de forma automática, mecânica, pois ela desafiava a estrutura hierárquica das artes visuais do século XVIII que estavam norteadas pelo saber fazer da gravura, desenho ou da pintura. (MACHADO, 2003).

(...) Um fato interessante da fotografia é que ela conservou até recentemente , mais de um século após sua criação, uma parte do processo herdado no mundo técnico: a revelação em filme. Qualquer pessoa, sem nenhum conhecimento de como funciona uma máquina, pode apertar o disparador e, inevitavelmente, terá feito uma fotografia. No entanto para que ela passe para o negativo e daí para o suporte final, há um trabalho de laboratório com fluídos químicos corretos, temperatura, e luminosidade adequadas, para o qual é necessário um conhecimento técnico. (MACHADO, 2003, p. 48).

No século XIX, a industrialização emergiu movimentos tecnológicos que remodelaram a sociedade e influenciaram as artes visuais, porém ainda privilegiavam o artista como protagonista do processo.
Neste mesmo século surgiu uma nova arte visual tecnológica: o cinema. Uma forma de extensão da fotografia que buscava capturar imagens em movimento.
Esta foi a principal diferença entre as duas expressões artísticas:

Enquanto a fotografia congela um instante temporal, o cinema trabalha seu decurso. Esteticamente, isso permitia inserir experimentos narrativos como forma de se apropriar das tecnologias. (MACHADO, 2003, p. 49).
Essa nova linguagem artística efetivou completamente o mundo tecnológico porque desenvolvia um trabalho coletivo organizado de forma segmentada onde cada um dos agentes envolvidos, atores, diretores, editores, produtores, iluminadores e cinegrafistas trabalhavam em prol de um produto final ― o filme, sendo que ninguém, envolvido neste processo, teria o controle absoluto dos trabalhos e etapas instaurados por ele.
No século XX, a arte foi embebedada pela absorção de novas tecnologias na criação artística.
De acordo com Santaella (2003), nos anos 50 e 60, o cinema experimental voltou a receber um grande impulso principalmente nas obras dos artistas do movimento Fluxus. Nas artes plásticas enquanto Mondrian levava a pintura ao limite das meras variações de ângulos retos e cores primárias, Pollock a transformara em pura energia do gesto. Ao mesmo tempo em que a revolução eletrônica, um bom número de tecnologias começava a surgir, colocando a disposição do imaginário artístico.

Embora a tecnologia estivesse envolvida no fazer artístico, ela ganha maior importância na arte-tecnologia no contexto de uma tecnologia eletroeletrônica no final do século XX, começa a estar no presente em todas as atividades do cotidiano, moldando a sociedade e a cultura da época. (SOGABE, 2004, p. 127).

As tecnologias como rádio, TV, computador, começam a popularizar-se e o conceito de arte voltada ao uso destes recursos se solidificou.
O rádio, por exemplo, primeiro meio efetivamente de massa, influenciou primeiramente o teatro para depois ser explorado como fonte autônoma para a criação.
Em sua trajetória artística podemos evidenciar no final da década de 20 um filme acústico criado por Walter Ruttman, a criação de uma nova estética musical e as produções musicais inovadoras de John Cage, Boulez e Stockhausen.
Segundo Santaella (2003), a televisão principiou seu espaço no meio artístico através do Manifesto Del Movimiento Spaziale per La Televisione‒1952, escrito pelo argentino Lucio Fontana que reivindicou a televisão como meio de arte. Também nos anos 50, Otto Piene e Wolf Vostell já incluíram aparelhos de TV as suas assemblages. Mas foi no ano de 1962 que o artista francês César, na exposição Antogonimes II‒Ióbjet, apresentou um televisor como obra de arte. Logo em seguida Nam June Paik, o grande pioneiro e ícone de uma série de tendências das artes tecnológicas, exibiu seu primeiro conjunto de aparelhos de TV manipulados na Exposition of Music‒Eletronic Television, na galeria Parnass de Wuppertal.
Mas o grande astro da arte tecnológica não foi a televisão, mas sim o vídeo. Primeiramente porque este aparelho tinha um preço razoável e muitos dos artistas não tinham acesso aos recursos técnicos sofisticados, disponíveis aos profissionais da televisão. De acordo com Santaella (2003), o tratamento televisivo se dava predominantemente pelo uso do aparelho de TV como o objeto e, portanto como uma quase escultura. A videoarte tomou corpo e novas maneiras usar a linguagem do vídeo começaram a ser exploradas pelos artistas. Um trabalho importante para afirmar o uso desta ferramenta como obra foi feita por Paik (1965) quando passou um vídeo produzido por ele no Café a Go Go sobre a visita do Papa pelas ruas de Nova York. Muitos o consideram a primeira obra de videoarte do mundo.

Ao colocar a luz artificial em movimento, os artistas cinéticos prenunciavam as imagens feitas de luz que viriam dominar a cena da videoarte, nos anos 70 e das imagens, nos anos 80. Mas antes disso, quando o computador não passava de um monstrengo cheio de cabos e fios ocupando salas inteiras, nos anos 60 , artistas e poetas sonhavam com o uso desses recursos para renovar princípios da arte. O fato, a arte cinética, arte computacional emergente e formas de arte da luz já estavam tentando resolver a divisão entre a criatividade artística tradicional e as formas de criação científicas e industriais. (SANTAELLA, 2003, p. 159-160).

Ao adotar as tecnologias e todas as suas potencialidades na arte, os artistas abriram mão da genialidade individual para construir em cooperação com outras ciências uma nova forma de fazer artístico onde o potencial e a criatividade estavam também em consonância com os conhecimentos matemáticos e científicos oportunizando a estas ciências novas formas de expressão.
Os artistas tecnológicos, como descreve Santaella (2003), eram construtores de sistemas e ao mesmo tempo criadores de seus próprios trabalhos de arte.
Nos anos 70 os territórios da arte e mesmo a cultura relacionadas com as tecnologias começam a delinear-se historicamente. Esta época foi marcada pela euforia de muitos artistas em utilizar o vídeo como matéria-prima em seus trabalhos e pela inserção das videoinstalações e ambientações multimídias.
Já nos anos 80, o surgimento do vídeo independente e das produtoras de TV inspiraram os artistas com sua linguagem mercadológica. Santaella (2003) coloca que alguns jovens videomakers que avizinhavam da TV de massa para virar pelo avesso sua linguagem. Domingues (1997) afirma que:

Os anos 80 são caracterizados por grandes modificações no curso da arte com as tecnologias; são decorrentes da universalização e impacto da informática, e a crescente complexidade das multimídias, intermídia e operações telemáticas. (DOMINGUES, 1997 p. 204).

Verificamos que esta foi uma década inspiradora onde a ciência, tecnologia e arte, todas em crescente aceleração, se fundiram, fixando-se de vez no corpo social.
REFERÊNCIAS


DOMINGUES, Diana. A Arte no Século XXI: A Humanização das Tecnologias. São Paulo: Unesp, 1997.

FOLEY, Roberto. Os Humanos Antes da Humanidade: Uma Perspectiva Evolucionista. Tradução Patrícia Zimbres. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e Ensino Presencial e a Distância. Campinas: Papirus Editora, 2003.

MACHADO, Arlindo. Nasce a Arte Tecnológica: Fotografia e Cinema. In: DUARTE, Fábio. Do Átomo ao Bit: Cultura em Transformação. São Paulo: Annablume, 2003.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e Artes do Pós-Humano: Da Cultura das Mídias e Cibercultura. São Paulo: Paulus Editoras Editora, 2003.


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2 comentários:

Irene Ferreira disse...

Maravilhoso trabalho, dissertação de fácil compreensação, embasamento em autores ótimos, em um tema de suma importãncia. Parabéns!

equipe pedagogaandreaeduca disse...

Obrigada! Sua devolutiva é muito importante para nós.

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